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Ivaldo Lemos Junior
Procurador de Justiça do MPDFT

“Um tribunal safado sempre vale qualquer coisa, um juiz canalha hesita ao lançar uma sentença pulha: teme a opinião pública, em última análise o júri razoável. É esse medo que às vezes anula as perseguições” (Graciliano Ramos, “Memórias do cárcere”, parte 1, cap. X).

Era uma vez um juiz canalha. Ou melhor, um canalha investido do cargo de juiz que, óbvio, empilhava as maiores canalhadas. Dava ordens a seu bel prazer, sem freios nem controle, ao contrário, a força pública – sintetizada por um lacaio chamado Beadle -- estava com ele, respaldando-o cegamente e até com orgulho de ser o escroque beta do pedaço e aproveitar as migalhas que caíam no chão.

O nome desse juiz era Turpin. Um dia, uma família entra no seu radar: os Barker, compostos pelo pai, o barbeiro Benjamin, a mulher, a bela Lucy, e a filha bebê, Johanna. Eles viviam sossegados e burgueses, ou, assim se preferir, felizes. Turpin prende e exila Benjamin (não sei a que pretexto jurídico mas, nessas horas, qualquer coisa serve), violenta Lucy e aprisiona Johanna.

Anos depois, Benjamin volta para a terrinha e adota nova identidade, Sweeney Todd. É vingança pura. Retoma as atividades de barbeiro e monta seu salão com uma alavanca acoplada à cadeira. Após cortar a jugular do cliente, ele puxa a alavanca, o corpo cai no andar de baixo e é rapinado pela senhora Lovett, sua comparsa, para fabricação de tortas de carne. Todd mata vários, coreografando a navalhada no pescoço de Turpin, o que um dia consegue. É mais ou menos assim que os turpins da vida costumam terminar suas jornadas.

Na vida real, houve o juiz canalha Roland Freisler. Os EUA jogaram uma bomba no Tribunal do Povo, em 3.2.1945. Era um sábado, mas Freisler lá estava e se foi. Não foi alavancado. Não foi rapinado. Não foi canibalizado. Mas, como naquela peça de Ionesco, é um cadáver que não para de crescer.

Jornal de Brasília - 26/2/2025

Os textos disponibilizados neste espaço são autorais e foram publicados em jornais e revistas. Eles são a livre manifestação de pensamento de seus autores e não refletem, necessariamente, o posicionamento da instituição.

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